Na história do homem e do mundo a transmissão de conhecimentos de pai para filho e de povo para povo foi a grande responsável pela evolução da própria humanidade. Há 500 anos, essa troca de conhecimentos teve início no Brasil. A descoberta do país pelos portugueses, a convivência destes com os índios e a chegada de escravos vindos da África caracterizam essa fusão de valores e costumes. Hoje, devido à facilidade de transporte e à comunicação, tornou-se impossível a não existência dessa miscigenação de povos, o que proporciona a multipluralidade cultural em cidades interioranas como Sorocaba, Itu, Salto e Indaiatuba. Este ano, podemos voltar no tempo para falar dessas diferenças de costumes, de religião, tudo que caracteriza um povo.
Um século após a grande onda imigratória no Brasil, discutir o que culminou essa miscigenação de culturas tão distintas se torna imprescindível. Hoje, italianos, alemães, portugueses, espanhóis, imigrantes de muitos países fazem a cultura brasileira. Porém nenhum desses povos se apresenta tão diferente em seus costumes e valores quanto os imigrantes japoneses. Vindos com o incentivo do Império nipônico da Era Meiji devido à miséria e o grande número de habitantes no Japão, os imigrantes sofreram para se adaptar ao Brasil. A comida, a religião, o clima tropical, o idioma, são apenas algumas das características que levou isseis (japoneses natos) ao sofrimento e até mesmo à morte. No navio Buenos Aires Maru, que atracou no Porto de Santos em 1934, Mitsuyo Mori viu seu irmão, ainda bebê, morrer. No novo país, após uma virose atingir toda sua família, a criança de 12 anos perdeu outro irmão, este com apenas dois anos de idade. “A viagem foi muito difícil, a adaptação também nos fez adoecer”, conta a senhora, hoje com 86 anos. Mitsuyo e sua família vieram no último navio antes da Segunda Guerra Mundial, na década de 30.
Anos antes, em 1908, chegava ao Porto de Santos o Kasato Maru e, na tripulação, quase 800 japoneses marcando o início da história da Imigração Japonesa no Brasil. A viagem de 52 dias teve fim em 18 de Junho. Após a chegada, os imigrantes firmaram contrato com seis fazendas do interior paulista distribuídas na região de Ribeirão Preto, em São Manuel e Itu. Foi nessas fazendas que os nipônicos descobriram a real situação brasileira. O Museu da Imigração Japonesa retrata a trajetória dos imigrantes no Brasil: “Os imigrantes da primeira fase (até 1941) chegaram ao Brasil dispostos a trabalhar de três a cinco anos, economizar para retornar ao Japão. Poucos deles conseguiram atingir esse objetivo”. Os baixos salários pagos pelos fazendeiros e as condições precárias de moradia influenciaram na fuga dos imigrantes das fazendas aonde foram morar e trabalhar. Nascido no Japão, Tomoo Handa descreve no livro O imigrante japonês outras dificuldades à vida dos japoneses nas fazendas “o jeitão de superioridade do administrador, a arrogância do fiscal e o mau atendimento do intérprete”. Para ele, tudo contrariava os imigrantes. A partir de então restava a eles a busca pela liberdade e, um ano depois, apenas 191 ainda trabalhavam nas fazendas.
Hoje, livres, as tradições, os traços, modos de viver tão peculiares, ainda são mantidas. Shogo Handa, 79 anos, buscou transmitir isso a seu filho. O homem fala com orgulho de Francisco Handa, monge e historiador. “Ele nasceu aqui no Brasil, mas é um japonês”, diz o senhor Handa. O filho vai escrever, ainda esse ano, um livro sobre a imigração japonesa no país. Certamente, escreverá que aqui, cem anos após a chegada dos primeiros japoneses, vivem cerca de 3,5 milhões de descendentes e, seus ritos, seus traços e suas histórias permanecem intocáveis.
Para homenagear os imigrantes, várias cidades do Estado de São Paulo, como Sorocaba, Indaiatuba e Salto estão promovendo festas, construindo praças, parques e, até mesmo, decretando 18 de junho como o dia da imigração japonesa no Brasil. Homenagens como estas possibilitam que todos conheçam um pouco da cultura e da história do povo nipônico.
Traços Marcantes
Sentado a seu lado pouco pude arrancar de sua história marcada por acontecimentos infelizes, acarretados pelos duros anos de adaptação ao Brasil. Mitsuyo Mori, ou dona Maria - como é chamada pela população de Salto, cidade adotada por Mori, seu marido e seus cinco filhos em 1962 – relembra toda sua trajetória nessa terra quente e “calma”, como ela diz. Dos longos dias de viajem ela guarda más recordações, a doença que assolou toda sua família, a morte de dois irmãos, a vida dura na fazenda de café. Porém não lamenta, cita as conquistas. “Aqui trabalhei e consegui que meus filhos vencessem na vida”, diz a senhora que, apesar dos 86 anos, mantém seus cabelos negros, traços típicos de seu povo.
As tristezas dos tempos da imigração não foram únicas, após dois anos na nova cidade, dona Maria, perdeu seu marido. Sozinha criou seus filhos, montou uma pensão, depois uma padaria. Nelson, seu filho mais velho, então com 17 anos, teve que trabalhar. “Ele entrou e se aposentou na mesma empresa, saiu de lá chefe”, fala com o mesmo tom de orgulho de todos seus filhos e netos.
Ansioso, perguntei o que todos perguntariam, voltaria para o Japão? Sem pensar muito ela diz que não. “Fui lá há alguns anos, não gostei”, afirma. Para ela, a correria, os avanços no país apagaram as imagens que ainda guardava de sua terra natal.
Reportagem de Anderson Oliveira
*Matéria produzida para a disciplina de Revista Laboratório, sob orientação da prof. Ms. Andrea Sanhudo.
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