terça-feira, 6 de outubro de 2009

Tietê – o turismo às margens do grande rio paulista





Em qualquer um dos parques turísticos de Salto, o maior e mais importante rio paulista aparece como atrativo principal. O Rio Tietê, que ao longo dos séculos propiciou a exploração do sertão de São Paulo, é tomado nos atrativos municipais em sua história, seu percurso e em todas as peculiaridades do curso d’água responsável pela descoberta de um país que não era apenas litoral. Das expedições de bandeirantes e jesuítas, passando por artistas e estudiosos, o rio, devido a sua riqueza, tornou-se importante símbolo de discussão econômica, histórica, ambiental e cultural. Não bastando tudo isso, a natureza proporcionou ainda uma grande cachoeira, chamada pelos índios de Ytu-Guaçú (Salto Grande). "Disso advém o potencial turístico de Salto. É impossível falar em turismo nessa cidade desconsiderando o Rio Tietê", afirma o secretário da Cultura e Turismo, Valderez Antonio da Silva.

Dedicado à história e ao rico ecossistema, o Memorial do Rio Tietê, um dos atrativos mais visitados de Salto, é uma iniciativa da cidade de tratar das questões ambientais, históricas e culturais. Dentro do Complexo Turístico da Cachoeira, à margem direita do rio, o lugar conta a história do Tietê, da nascente à foz. Na busca da conscientização ambiental, documentários apresentados em um auditório, nas dependências do memorial e em monitores espalhados pelo lugar, tratam da poluição e outras questões ecológicas.

A exploração turística do Tietê continua em mais dois parques, ambos à margem do rio, enaltecendo a mata ciliar e as corredeiras próprias da região. "São ótimas iniciativas, pois chamam a população e os turistas à conscientização sobre a importância da recuperação e preservação do Tietê", destaca o presidente do Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Sorocaba e Médio-Tietê, o Wendell Rodrigues Wanderley.

Um complexo de atrativos, contrasta com um rio poluído, destituído de sua beleza natural. "A sensação que fica é um misto de paz proporcionado pelo lugar e de indignação diante do desprezo dos homens pelo local", conta Guilherme Guarnieri, morador da cidade. O mesmo pensa o secretário Valderez, "fica a indignação, sim, e isso acaba acelerando o processo de despoluição, pois a cada vez que vem um jornalista aqui e se irrita com essa demora, mais o tema é tratado". O mesmo vale, diz o secretário, para as iniciativas. "Se ficássemos esperando que o rio fosse despoluído para fazer tudo isso, ficaríamos sempre na espera, e nada seria feito".

Hoje, quase todos os planos municipais têm o Tietê como elemento principal. Dentre os projetos já em curso, prevê-se o turismo também em caráter educacional e de conscientização ecológica, através da Ilha da Usina, próxima ao Complexo da Cachoeira. O lugar conta com flora e fauna preservada desde os anos 1920, quando foi construída a usina hidrelétrica que abastece a cidade. Outro projeto já em execução é o que possibilita a navegação turística do Tietê. Cogita-se, ainda, que o projeto estadual de navegar pelo rio também tenha Salto como uma das cidades beneficiadas.

O rio, que possibilitou inúmeros feitos, visto pelo secretário Valderez e pelo ambientalista Wendell como uma sala de aulas, é e sempre foi um importante atrativo turístico. "Antes mesmo que existisse o conceito de ‘turismo’, o rio já atraia artístas, estudiosos e até mesmo pessoas que só queriam desfrutar dessa paisagem proporcionada pelo Tietê", conta Valderez Antonio. Em fevereiro, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo - Sabesp, informou que daqui a nove anos o rio estará despoluído em Salto, o último município depois da Grande São Paulo que ainda sofre com a poluição do Tietê.


Reportagem e foto: Anderson Oliveira
*Matéria publicada no Jornal Ensaio, da Universidade de Sorocaba

Uma semana dentro da cultura afrobrasileira



Um país miscigenado, marcado pela diversidade de rostos, de credos e artes. A cultura brasileira está longe de uma definição, é uma manifestação de povos e povos, de lugares que se encontram num mesmo cenário. Toda essa mistura acarretou na imagem de um povo alegre, com seus sons e crenças próprios. Temos a imagem do samba de roda, do gingado da capoeira, dos terreiros de Umbanda e Candomblé, da feijoada, do acarajé e do vatapá, todas essas quando não símbolos maiores da cultura nacional, ganham forma e vida em solos brasileiros e, assim, perfazem o sincretismo artístico e religioso de nosso país. Foram as manifestações dessa cultura, uma fusão de europeus e africanos, que busquei e vivi durante uma semana.

Em um terreiro de Umbanda

Entrar num terreiro de Umbanda trouxe-me o tão esperado contato com o novo; as cantigas e as danças que juntos evocam orixás ou espíritos implicavam numa recôndita paz. A religião centenária perfaz o sincretismo religioso e cultural brasileiro. No ritual, assistido numa calma sexta-feira, a imagem de Jesus – Oxalá no Umbanda - tomava a parte mais elevada do altar, abaixo seguiam-se as figuras de Iemanjá e Ogum, representações que se assemelham a santos da religião Católica, como este que em São Paulo também é chamado de Santo Antonio e aquela Nossa Senhora dos Navegantes. Ainda se veem as imagens de Cosme e Damião (ibejis: gêmeos amigos das crianças), ambos festejados pelas duas religiões.

Os atabaques, nesse instante, traziam ritmos que embalavam histórias de homens e mulheres, os escravos, pretos-velhos, caboclos, ciganos, dentre outros. Nesse dia os entes evocados eram os pretos-velhos, escravos africanos que morreram de velhice, dotados de uma poderosa sabedoria. Sentado, tentando o melhor ângulo para uma foto, mal vi uma das mulheres a se aproximar, perguntando-me se queria tomar o passe. Prostrei-me diante de uma senhora, absorvida em suas meditações tragava calmamente seu fumo de corda. Tomei o passe, levantei-me e se seguiram novas cantigas, acabando a celebração.

“Foi há cem anos, em Minas Gerais, com Zélio Fernandino de Morais que isso aqui teve início”, conta-me, logo após o rito, Pai Roberto D’Ogum, presidente da casa na qual tive meu primeiro contato com a religião que, século passado, influenciou alguns de meus mestres, como Jorge Amado e Vinícius de Moraes. A dúvida que restava era quanto às representações no altar. E é o historiador Valderez Antonio da Silva quem me explica: para ele, há duas versões para essa junção entre santos católicos e divindades oriundas da África. “Talvez uma saída que os africanos arranjaram para terem seus deuses aceitos; outra hipótese é oposta, pode ser uma forma que a Igreja encontrou para explicar a crença cristã, comparando seus santos às entidades das religiões africanas”, conta.

Apesar das diferenças entre Umbanda e Candomblé, é nesta que aquela encontra sua raiz, sua origem africana. Foi no terreiro de Candomblé de Mãe Menininha, na Bahia, que Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Gilberto Gil conheceram a religião originária da África. Hoje, brancos e negros, pessoas de todas as etnias e classes sociais têm a Umbanda e o Candomblé como sua principal religião. “Aí está a grande vitória do povo africano, após anos de sofrimento, o branco ganha seu gingado, rende-se à sua cultura”, diz, também rendido, Valderez Antonio.

O samba, a capoeira e a feijoada

“O gingado”, as palavras do historiador remetiam a outros recantos, às manifestações que também compunham o rol de eventos os quais pretendia vivenciar. Era o samba de roda, era a arte da capoeira, ambos encerrados pela mistura que nos trazia a feijoada. Pude, então, ver o pandeiro, o atabaque, o berimbau, o requebrado das morenas. “‘Quem não gosta de samba, bom sujeito não é’ dizia Dorival Caymmi”, como não concordar, disse ao rapaz mais próximo. O samba ali demonstrava a união, a alegria presente em toda a cultura afrobrasileira: a roda de samba, de capoeira ou até mesmo a roda no terreiro de Umbanda.

Das religiões, dos ritmos que pulsam no coração brasileiro, das cores que alegram e nos distinguem dos demais, pouca coisa é nacional sem ser afrobrasileira. O aroma da feijoada, o forte sabor da carne e do feijão preto, atenuados pelo doce sabor da caipirinha, acompanhavam o dialogar, o escrever, e o conhecer sobre essa cultura. Num destes momentos, Valderez Antonio, o historiador que me acompanha nesta semana de contato com a maior das culturas nacionais, cita-me Caetano Veloso, outro apaixonado por tais manifestações. É com ela, parte da canção “Milagres do povo”, que encerro:

“É no xaréu que brilha a prata luz do céu
E o povo negro entendeu que o grande vencedor
Se ergue além da dor
Tudo chegou sobrevivente num navio
Quem descobriu o Brasil?
Foi o negro que viu a crueldade bem de frente
E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente”


Reportagem e foto: Anderson Oliveira

*Matéria publicada no Jornal Ensaio, da Universidade de Sorocaba.